26.7.17

José Luis Hidalgo (Só tu e eu sabemos)





Sólo tú y yo sabemos la verdad de este mundo
 que día a día robamos a la muerte,
 que erigimos de nada tan solo con palabras
 humo  
 ceniza de un beso olvidado en tu frente.  
 Sólo tú y yo sabemos  
 fábulas como flautas  
 silencios como hormigas más o menos sonoras  
 y eso que se edifica lentamente en tus ojos  
 detrás de la vitrina o cristal de una lágrima  
 ese beso o latido  
 esa sonrisa o llama  
 de tener a la vida en la flor de los labios.


José Luis Hidalgo




Só tu e eu sabemos a verdade deste mundo
que roubamos à morte dia a dia,
que erguemos do nada só com palavras
fumo
cinza de um beijo esquecido na tua fronte.
Só tu e eu sabemos
fábulas como flautas
silêncios como formigas mais ou menos sonoras
e isso que se edifica lentamente em teus olhos
por trás da vitrina ou cristal de uma lágrima
esse beijo ou pulsar
esse sorriso ou chama
de ter a vida à flor dos lábios.


(Trad. A.M.)

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25.7.17

José Luis García Martín (Versos escritos entre duas aulas)





VERSOS ESCRITOS ENTRE DUAS AULAS
NA CAFETERIA DA FACULDADE



Um abismo separa tua vida da minha.
Lá no fundo as águas do grande rio,
ao alto abutres que não param.
Cerro os olhos antes do grande salto,
do cego impulso para lado nenhum.
Quando os abro sorris-me
– Estavas há muito à espera? –
não sei se neste mundo ou no outro.


J.L. García Martín



(Trad. A.M.)

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24.7.17

Daniel Filipe (Paisagem)





PAISAGEM



Ilha: pedaço de osso
à flor da pele do mar.
Esquírola viva, troço
de abóbada lunar.
Mar em azul inesperado.
Ilha, começo e fim do mundo
perpetuamente adiado
entre as algas do fundo.
Ilha, navio antes do oceano,
terra em pouso do sonho, rosto
de pedra com perfil humano,
ao vento sul exposto.


Daniel Filipe


>>  Escritas (8p) / Antonio Miranda (6p) / Wikipedia

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23.7.17

José Hierro (Luz da tarde)





LUZ DE LA TARDE



Me da pena pensar que algún día querré ver de nuevo este espacio,
tornar a este instante.
Me da pena soñarme rompiendo mis alas
contra muros que se alzan e impiden que pueda volver a encontrarme.

Estas ramas en flor que palpitan y rompen alegres
la apariencia tranquila del aire,
esas hojas que mojan mis pies de crujiente hermosura,
el muchacho que guarda en su frente la luz de la tarde,
ese blanco pañuelo caído tal vez de unas manos,
cuando ya no esperaban que un beso de amor las rozase...

Me da pena mirar estas cosas, querer estas cosas, guardar estas cosas.
Me da pena soñarme volviendo a buscarlas, volviendo a buscarme,
poblando otra tarde como ésta de ramas que guarde en mi alma,
aprendiendo en mí mismo que un sueño no puede volver otra vez a soñarse.


José Hierro





Dá-me pena pensar que um dia hei-de querer ver de novo este espaço,
tornar a este instante.
Dá-me pena sonhar-me a quebrar as asas
contra os muros que me impedem de voltar a encontrar-me.

Estes ramos em flor que quebram de alegria
o ar tranquilo da tarde,
estas folhas que me molham os pés de beleza,
o moço que guarda na fronte a luz vespertina,
esse lenço branco caído acaso de umas mãos
que já não esperavam que um beijo de amor as tocasse...

Dá-me pena olhar para estas coisas, querê-las, guardar estas coisas.
Dá-me pena sonhar em voltar a buscá-las, em voltar a buscar-me,
povoando outra tarde como esta de ramos que guarde na alma,
aprendendo em mim mesmo que um sonho não pode voltar outra vez a sonhar-se.


(Trad. A.M.)

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22.7.17

José Emilio Pacheco (O 'y')





LA “Y”



En los muros ruinosos de la capilla
florece el musgo pero no tanto
como las inscripciones: la selva
de iniciales talladas a navaja en la piedra
que, unida al tiempo, las devora y confunde.

Letras borrosas, torpes, contrahechas.
A veces desahogos, insultos.
Pero invariablemente
las misteriosas iniciales unidas
por la “y” griega:
manos que acercan,
piernas que se entrelazan, la conjunción
copulativa, huella en el muro
de cópulas que fueron o no se realizaron.
Cómo saberlo

Porque la “y” del encuentro también simboliza
los caminos que se bifurcan: E.G.
encontró a F.D. Y se amaron.
¿Fueron “felices para siempre”?
Claro que no, tampoco importa demasiado.

Insisto: se amaron
una semana, un año o medio siglo.
Y al fin
la vida los separó o los desunió la muerte
(una de dos sin otra alternativa).

Dure una noche o siete lustros, ningún amor
termina felizmente (se sabe).
Pero aun la separación
no prevalecerá contra lo que juntos tuvieron.

Aunque M.A. haya perdido a T.H.
y P. se quede sin N.,
hubo el amor y ardió un instante y dejó
su humilde huella, aquí entre el musgo,
en este libro de piedra.


José Emilio Pacheco

[Escomberoides]





Nos muros da capela em ruínas
o musgo alastra, mas não tanto
como as inscrições, a selva
de iniciais marcadas à navalha na pedra,
que as devora e confunde, aliada ao tempo.

Letras confusas, desajeitadas, contrafeitas.
Às vezes desabafos, insultos.
Mas invariavelmente
as misteriosas iniciais unidas
pelo “y” grego,
mãos que acercam,
pernas que se enlaçam, a conjunção
copulativa, marca no muro
de cópulas que foram
ou não chegaram a ser.
Como sabê-lo?

Porque o “y” do encontro também simboliza
caminhos que se bifurcam: E.G.
encontrou F.D. E amaram-se.
Foram “felizes para sempre”?
Claro que não, nem isso importa muito.

Insisto, amaram-se
uma semana, um ano ou meio século.
E por fim
a vida separou-os ou desuniu-os a morte
(uma de duas, sem mais alternativa).

Dure uma noite ou sete lustros, nenhum amor
termina de modo feliz (é sabido).
Mas também a separação
não prevalecerá contra o que juntos tiveram.

Mesmo que M.A. tenha perdido T.H.
e P. fique sem N.,
houve amor e ardeu um instante e deixou
uma marca humilde, no meio do musgo,
neste livro de pedra.


(Trad. A.M.)

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21.7.17

Charles Bukowski (Nossa curiosa posição)





OUR CURIOUS POSITION



Saroyan on his deathbed said,
"I thought I would never die. . . "

I know what he meant:
I think of myself forever
rolling a cart through a
supermarket
looking for onions, potatoes
and bread
while watching the misshapen
and droll ladies push
by.
I think of myself forever
driving the freeway
looking through a dirty
windshield with the radio tuned to
something I don't want
to hear.
I think of myself forever
tilted back in a
dentist's chair
mouth
crocodiled open
musing that
I'm in
Who's Who in America.
I think of myself forever
in a room with a depressed
and unhappy woman.
I think of myself forever
in the bathtub
farting underwater
watching the bubbles
and feeling proud.

but dead, no. . .
blood pin-pointed out of
the nostrils,
my head cracking across
the desk
my fingers grabbing at
darkspace...
impossible ...

I think of myself forever
sitting upon the edge
of the bed
in my shorts with
toenail clippers
cracking off
huge ugly chunks
of nail
as I smile
while my white cat
sits in the window
looking out over the
town
as the telephone rings...

in between the
punctuating
agonies
life is such a
gentle habit:
I understand what
Saroyan
meant:

I think of myself
forever walking down the
stairs
opening the door
walking to the
mailbox
and finding all that
advertising
which
I don't believe
either.


Charles Bukowski



Saroyan dizia no seu leito de morte
“eu nunca pensei que morria”...

e eu percebo-o,
vendo-me a mim mesmo para sempre
a puxar um carrinho
no supermercado
em busca de cebolas, batatas
e pão,
e a ver passar as matronas
 ao lado a empurrar.
Vejo-me a conduzir eternamente
pela estrada,
olhando pelo vidro sujo, com o rádio
sintonizado em algo que não queria escutar.
Vejo-me recostado para sempre
na cadeira do dentista
a boca aberta como um crocodilo,
a pensar que figuro na lista
dos mais importantes da América.
Vejo-me num quarto para sempre
com uma mulher deprimida, infeliz.
Vejo-me na banheira
 a puxar uns traques subaquáticos
e a contemplar as bolhas, orgulhoso.

Mas morto, não...
o sangue a espirrar-me
do nariz,
a cabeça a estoirar-me no escritório,
os meus dedos filados
no espaço negro,
impossível.

Vejo-me eternamente sentado
na beira da cama,
em calções,
a cortar as unhas dos pés
sorrindo
para o gato sentado na janela
a olhar para fora
enquanto o telefone toca...

Por entre agonias pontuais
é um hábito catita, a vida:
percebo o que Saroyan
queria dizer:

Vejo-me no tempo a descer
as escadas,
abrir a porta,
ir à caixa do correio
e topar com a tralha
da publicidade
em que tão pouco acredito.


(Trad. A.M.)

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20.7.17

José Daniel Espejo (A máquina)





LA MÁQUINA



Nos perseguimos
para matarnos.
Esperamos el momento oportuno
para el golpe por sorpresa
la emboscada definitiva.
En la práctica esta guerra
se reduce a una larga
continua vigilancia. Lo peor
son las noches afilando cuchillos.


José Daniel Espejo




Para nos matarmos
nos perseguimos.
Esperamos o momento azado
para o ataque de surpresa,
a emboscada fatal.
Na prática, esta guerra
reduz-se a uma longa
contínua vigilância. O pior
são as noites a afiar as facas.

(Trad. A.M.)

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