16.8.17

Efraín Huerta (Seis da manhã)





SEIS A.M.



Y así
Murmuraba:
«Ya es lunes
Mañana martes
Y el miércoles
Está encima
Pronto
Será jueves
Y luego
Viernes
Y aún
No he
Hecho
Nada
         De trabajo».

Efraín Huerta




E assim
murmurava:

“Estamos
na segunda,
amanhã terça,
quarta
está quase,
em breve
será quinta
e depois
sexta
e eu ainda
não fiz
a ponta
      de um corno”.


(Trad. A.M.)

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15.8.17

Claudio Bertoni (Lar doce lar)





HOGAR DULCE HOGAR



el cáncer
la muerte no sería tan mala
si se pudiera traer a casa
si no hubiera que levantarse
si no hubiera que salir de la cama
si no hubiera que subirse a una ambulancia
si no hubiera que vivir en un hospital
si no hubiera que vivir entre desconocidos
si no hubiera que prescindir de las frazadas
del color de las frazadas de la casa
de la temperatura del color de las frazadas de la casa.

morir no sería tan malo si todo pasara en la casa
y con los de la casa
si uno tuviera la suerte de tener una casa.

lo peor del cáncer y de la muerte son la burocracia y el ajetreo
de los cambios de ropa y el frío de los pasillos y el frío de
las miradas de los extraños (de los que no sufren porque tú sufres
de los que no sufren porque tú vas a morir)
y la indiferencia de las calles y de los muros de las calles
y la indiferencia mortal del hospital y de todo lo que lame
y cubre por dentro a un hospital.

morir no sería tan malo
sufrir no sería tan malo
si se sufriera en la casa
si se supiera que nada ni nadie nos sacará
-en caso de morir o sufrir-
de la casa


Claudio Bertoni




o cancro
a morte não seria tão ruim
se eu pudesse trazê-la para casa
se não tivesse de levantar-me
se não tivesse de sair da cama
se não tivesse de ir de ambulância
se não tivesse de ficar internado
de viver no meio de gente desconhecida
de prescindir das cobertas
da cor das cobertas de casa
do calor e da cor das cobertas de casa.

morrer não seria tão ruim se tudo se desse em casa
e com os de casa
se eu tivesse a sorte de ter uma casa.

o pior do cancro e da morte é a burocracia e a agitação
das mudanças de roupa e o frio dos corredores e o frio
do olhar dos estranhos (dos que não sofrem porque tu sofres,
dos que não sofrem porque tu vais morrer)
e a indiferença das ruas e dos muros das ruas
e a indiferença mortal do hospital e de tudo o que lambe
e cobre por dentro um hospital.

morrer não seria tão ruim
sofrer não seria tão ruim
se a gente sofresse em casa
se soubesse que nada nem ninguém nos tirará
- em caso de morrer ou sofrer -
                                               de casa.


(Trad. A.M.)


>>  Memoria chilena (tudo+algo+obra toda ou quase) / Angelfire (12p) / Wikipedia

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14.8.17

Helder Moura Pereira (Esse vidro)





ESSE VIDRO



Janelas rompem
na casa, uma flor
no vestido, esse vidro
nos olhos. Janelas
sobre o que vês,
apenas o breve
relance de uma face
perdida, apenas
uma frase de jardim
ou uma rosa de julho.
Janelas rompem
nos teus olhos
e a roda do vestido
ilumina esta manhã.
Quando apontas
sou eu que venho
subindo as escadas,
sou eu que sinto
todas as mãos
por esta pele.
Aqui começa a cor
das telhas, o verde
musgo, a orientação
das imagens. Chegas
do lado mais esperado
da cidade e não
te encobre a bruma
definindo a linha
das janelas. A que
hesito entre o gesto
de mostrar a face
que regressa e adivinha.
No vidro dos olhos
a flor do vestido, nos
degraus o súbito
desejo de janelas
tapando a morte.



Helder Moura Pereira

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13.8.17

Juan José Saer (A arte de narrar)





EL ARTE DE NARRAR



Cada uno crea
de las astillas que recibe
la lengua a su manera
con las reglas de su pasión
-y de eso, ni Emanuel Kant estaba exento.


Juan José Saer
 


  



Cada um cria
das lascas que recebe
a língua a seu modo
com as regras da sua paixão
- e disso, nem Kant estava isento.


(Trad. A.M.)

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12.8.17

Juan Gelman (Regressos)





REGRESOS



Así que has vuelto.
Como si hubiera pasado nada.
Como si el campo de concentración, no.
Como si hace 23 años
que no escucho tu voz ni te veo.
Han vuelto el oso verde, tu
sobretodo larguísimo y yo
padre de entonces.
Hemos vuelto a tu hijear(*) incesante
en estos hierros que nunca terminan.
¿Ya nunca cesarán?
Ya nunca cesarás de cesar.
Vuelves y vuelves
y te tengo que explicar que estás muerto.


Juan Gelman




Com que então, voltaste.
Como se nada se passara.
Como se o campo de concentração, não.
Como se há 23 anos
que eu não te ouço nem te vejo.
Voltaram o urso verde, o teu
sobretudo longuíssimo e eu
pai de então.
Voltamos ao teu filhar incessante
nestes ferros que nunca acabam.
Nunca já cessarão?
Nunca já cessarás de cessar.
Voltas e voltas a voltar
e eu tenho que te explicar que estás
morto.

(Trad. A.M.)

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(*) Corrigido ‘hijar’ (que não existe) para ‘hijear’ (deitar filhos ou rebentos>filhar).

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11.8.17

Mário de Carvalho (A sala magenta)




Dantes, tudo era um peso ancestral de quietação e vagar pelas matas de sobreiral e pinho em redor das águas represadas a que chamam Lagoa Moura, havendo perto umas ruínas que a memória popular não assinala além dos mouros. 

Então, carregavam-se de silêncio as formas, pasma­vam lassos os ramos, pendiam restos de carumas, tombavam as pinhas de velhas, empastavam-se as folhas mortas, deixavam-se as portadas entreabertas. 

Em chegando a noite, com o rarear dos pássaros, alteavam-se as sombras, delineavam-se os contornos, adensava-se o espaço, vibrava subtilmente o ar e milhentos pequenos rumores emergiam do solo num restolhar de sobrevivência.

Na dobra do século, as brisas, mais rijas de ano para ano, entraram a balancear as copas, a revolver os gravetos, a frisar as águas, a desinquietar o silêncio e a fazer a demonstração prática e local de que o clima desvariava.


MÁRIO DE CARVALHO
A Sala Magenta-I
(2008)


>>  Mário de Carvalho / Recensão-1 (Teresa Sousa Almeida) / Recensão-2 (Manuel Portela) / Recensão-3 (Nelson Ferreira) / Recensão-4 (Beja Santos)

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10.8.17

Juan Carlos Mestre (Página com cão)





PÁGINA CON PERRO



Los carabineros detuvieron a mis amigos,
les ataron las manos a los raíles,
me obligaron como se obliga a un extranjero
a subir a un tren y abandonar la ciudad.

Mis amigos enfermaron en el silencio,
tuvieron visiones en la cercanía de lo sagrado.

No la herida del inocente,
no la cuerda del cazador de reptiles,
en mi pensamiento la crueldad tiene nombre.

Me llamaron judío,
perro judío,
comunista judío hijo de perro.

Este no es asunto que se pueda solucionar con tres palabras,
porque para cada uno de nosotros
esas palabras tampoco significan lo mismo.

Yo he tenido un perro,
he hablado con él,
le he dado comida.

Para alguien que ha tenido un perro,
la palabra perro es fiel como la palabra amigo,
hermosa como la palabra estrella,
necesaria como la palabra martillo.


Juan Carlos Mestre


[El juego de la taba]




A guarda deteve os meus amigos,
ataram-lhes as mãos aos carris,
 e a mim obrigaram-me, como se fosse estrangeiro,
a entrar no comboio e a deixar a cidade.

Meus amigos adoeceram no silêncio,
tiveram visões na orla do sagrado.

Não a chaga do inocente,
não a corda do caçador de serpentes,
em meu pensamento a crueza tem nome.

Chamaram-me judeu,
cachorro judeu,
judeu comunista filho de um cão.

Não é este um caso que possa resolver-se
com três palavras,
pois estas palavras não significam o mesmo
para cada um de nós.

Eu tive um cão,
eu falei com ele,
eu dei-lhe de comer.

Para alguém que teve um cão,
a palavra cão é fiel tal como a palavra amigo,
é bela como a palavra estrela,
é necessária como a palavra martelo.


(Trad. A.M.)

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