30.8.16

Dinis Moura (Testamento)






TESTAMENTO 



aos vermes 
este corpo inóspito 

à ciência 
este coração de carne 
húmus e sentimento 
este dilacerado e desiludido 
órgão devoto do amor



Dinis Moura

.

29.8.16

Juan José Saer (Aos pecados capitais)





A LOS PECADOS CAPITALES



Por nuestra fantasía, nos liberan
de la materia pura, pero caemos en la red
de la esperanza. Pecados, vicios, y hasta
las débiles virtudes, nos separan
del cuerpo único del caos,
nos arrancan
de la madera y de los mares.
Guardianes en el umbral de la nada.


Juan José Saer




Por nossa fantasia, libertam-nos
da matéria pura, mas vamos cair na rede
da esperança. Pecados, vícios, até
as débeis virtudes, apartam-nos
do corpo único do caos,
arrancam-nos
da madeira e dos mares.
Guardiães na soleira do nada.

(Trad. A.M.)



>>  Poetas siglo XXI (12p) / Facebook (8p) / Escritores (bio+linques) / Wikipedia


 .

28.8.16

Raduan Nassar (Sua jornalistinha de merda)





Mesmo assim estufei um pouco o peito e dei dois passos na direcção dela, e ela deve ter notado alguma solenidade nesse meu avanço, era inteligente a jovenzinha, e versátil a filha-da-puta, eu só sei que ela de repente levou as mãos na cintura, mudou a cara em dois olhos de desafio, os dois cantos da boca sarcásticos, além de esbanjar a quinquilharia de outros trejeitos, mas nem era preciso tanto, eu nessa altura já não podia mais conter o arranco 'você aí, você aí' eu disparei de supetão 'você aí, sua jornalistinha de merda'...


RADUAN NASSAR
Um copo de cólera
(1978)

.

Alfonsina Storni (Casas enfiladas)





CASAS ENFILADAS



Casas enfiladas,
casas enfiladas,
casas enfiladas.
Cuadrados, cuadrados,
cuadrados.
Casas enfiladas.

La gente ya tiene el alma cuadrada
ideas en fila
y ángulo en la espalda.
Yo mismo he vertido ayer una lágrima
Díos mío... cuadrada.


Alfonsina Storni

[Trilce]




Casas enfiladas,
casas enfiladas,
casas enfiladas.
Quadrados, quadrados,
quadrados.
Casas enfiladas.

As pessoas já têm a alma quadrada
ideias em fila
e ângulo nas costas.
Até eu verti ontem uma lágrima
Deus meu... quadrada.


(Trad. A.M.)

.

27.8.16

Bocage (Camões, grande Camões)






Camões, grande Camões, quão semelhante
Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!
Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,
Arrostar co'o sacrílego gigante;

Como tu, junto ao Ganges sussurrante,
Da penúria cruel no horror me vejo;
Como tu, gostos vãos, que em vão desejo,
Também carpindo estou, saudoso amante.

Ludíbrio, como tu, da Sorte dura
Meu fim demando ao Céu, pela certeza
De que só terei paz na sepultura.

Modelo meu tu és, mas... oh, tristeza!...
Se te imito nos transes da Ventura,
Não te imito nos dons da Natureza. 



Bocage

.

26.8.16

Felipe Benítez Reyes (Uma forma de eternidade)





UNA FORMA DE ETERNIDAD



Pero ¿el miedo era esto?
No los amenazantes
fantasmas del pensamiento y la conciencia.
No los largos pasillos de hospitales
con tubos fluorescentes día y noche.
Ni siquiera el temblor de irrealidad
que se queda en el alma si recuerdas.

El miedo, al parecer, es sosegado:

te llega cuando cierras la ventana
y comprendes que todo cuanto miras
es lo mismo que ayer, y que lo mismo
volverá a ser mañana y para siempre.


Felipe Benítez Reyes

[Apología de la luz]





Então, era isto o medo?
Não os fantasmas horríveis
do pensamento e da consciência.
Não os compridos corredores de hospital
com tubos fluorescentes dia e noite.
Nem sequer o tremor de irrealidade
que deixa na alma o recordar.

O medo, pelos vistos, é sereno,

vem-nos ao fechar a janela
e ao vermos que tudo o que olhamos
é o mesmo de ontem e será
o mesmo amanhã e para sempre.

(Trad. A.M.)

.

25.8.16

Raduan Nassar (Você vira um fascista)





E foi então que ela, com a mão ainda na maçaneta, deglutindo o grão perfeito do meu chamariz, e desenterrando circunstancialmente uns ares de gente séria (ela sabia representar o seu papel), entrou de novo espontaneamente em cena, me dizendo com bastante equilíbrio 'eu não entendo como você se transforma, de repente você vira um fascista' e ela falou isso de um jeito mais ou menos grave, na linha recta do comentário objectivo, só entortando, um tantinho mais, as pontas sempre curvas da boca, desenhando enfim na mímica o que a coisa tinha de repulsivo...


RADUAN NASSAR
Um copo de cólera
(1978)

.

Ernesto Pérez Vallejo (Inventário externo)





INVENTARIO EXTERIOR



No tengo amigos.
Pero soy yo el culpable de todo el silencio.

No se reír sin ganas,
no se escuchar sin hambre,
ni se llorar sin lágrimas.

No soy sociable, ni simpático, ni siquiera amable.
Odio las fotos, los espejos y los cristales de los coches.
A veces sonrío pero nunca lo bastante
como para que alguien pudiera confundir
paisaje con felicidad.

Estoy al borde del abismo por decisión propia,
estuve en otros precipicios por inercia del amor.
Me cambiaría ahora
pero es tarde.

He visto los mejores escotes del mundo
en una sola mujer.
He prometido no volver a decir su nombre.
Aunque yo nunca he cumplido una promesa.

Nunca he podido evitar trastocar los propósitos del año nuevo,
en febrero ya ni siquiera me acuerdo de olvidarte.

Sigo fumando,
no salgo a hacer ejercicios por el paseo marítimo,
ni he dejado de masturbarme a diario.

Si fuera realista diría
que lejos estás mejor.
Pero soy pesimista y pienso
que lejos mejor muerta.

Supongo que el desamor me queda grande
como los pijamas que me compra mi madre cada reyes.

Hace trescientos cuarenta y seis días que no lloro,
alguien podría pensar que es carencia de sensibilidad
yo creo que simplemente me faltan los motivos.

Ahora que nadie dice adiós
es complicado ponerse triste y que te crean.
La moda del hasta luego es sin lugar a dudas
la más malvada de todas.
Supera al tanga incluso.

Si supieras a cuantas personas he perdido en un hasta luego
el hasta nunca te parecería un recurso poético
para que el dolor atravesara este folio.

Una vez, una sola vez en mi vida me dije te quiero.
En realidad era a ella
pero en aquellos tiempos estábamos tan unidos
que ni sabía diferenciarme.

Ahora me odio.
O la odio.
Tampoco lo sé.


Ernesto Pérez Vallejo

[Los lunes que te debo]




Amigos não tenho,
mas o silêncio é culpa minha.

Não sei rir sem vontade,
não sei escutar sem fome,
não sei chorar sem lágrimas.

Não sou sociável, nem simpático, nem sequer amável.
Odeio fotos, espelhos e vidros de carros.
Às vezes sorrio, mas nunca o bastante
para que alguém pudesse confundir
paisagem e felicidade.

Estou à beira do abismo por decisão própria,
estive em outros precipícios por inércia do amor.
Agora mudaria,
mas é tarde.

Vi os melhores decotes do mundo
numa só mulher.
Jurei que nunca mais diria o seu nome,
embora eu nunca cumpra as minhas juras.

Nunca consegui deixar de transtornar os propósitos do ano novo,
em Fevereiro já nem sequer me lembro de te esquecer.

Continuo a fumar,
não corro à beira-mar,
nem deixei de masturbar-me diariamente.

Se eu fosse realista diria
que longe estás melhor.
Mas sou pessimista e penso
que longe antes morta.

Creio que o desamor fica-me grande
tal como os pijamas que minha mãe me compra pelos Reis.

Há trezentos e quarenta e seis dias que não choro,
podia pensar alguém que é falta de sensibilidade,
eu julgo que é só por falta de motivos.

Agora que ninguém já diz adeus
é difícil ficar-se triste e acreditarem-nos.
A moda do até logo, sem dúvida,
é a mais malvada de todas,
supera mesmo a da tanga.

Se soubesses as pessoas que perdi num até logo
o até nunca havia de parecer-te um recurso poético
para a dor perpassar nesta folha.

Uma vez, uma só vez na vida ela me disse amo-te.
Na verdade era a ela,
mas nesse tempo estávamos tão unidos
que nem conseguia distinguir-me.

Agora odeio-me.
Ou odeio-a.
Nem sei.

(Trad. A.M.)

.

24.8.16

Antonia Pozzi (Pausa)





PAUSA



Parecia-me que este dia
sem ti
devia ser inquieto,
escuro. Em vez disso está repleto
de uma estranha doçura, que aumenta
com o passar das horas –
quase como a terra
após um aguaceiro,
que fica sozinha no silêncio a beber
a água caída
e pouco a pouco
nas veias mais profundas se sente
penetrada.

A alegria que ontem foi angústia,
tempestade –
regressa agora em rápidas
golfadas ao coração,
como um mar amansado:
à luz suave do sol reaparecido brilham,
inocentes dádivas,
as conchas que a onda
deixou sobre a praia.


Antonia Pozzi

(Trad. Inês Dias)

.