27.9.16

Jorge de Sousa Braga (Carta de amor-1981)





CARTA DE AMOR (1981)

            A Eugénio de Andrade



Eugénio de Andrade
Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de
costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e ...
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
Podes invocar Safo Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de
eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração.



Jorge de Sousa Braga



.

26.9.16

Ernesto Pérez Vallejo (Se cair uma estrela)





SI PASA UNA ESTRELLA FUGAZ DIME TU NOMBRE



Tal vez no debía haber posado mis ojos en ti,
yo soy de esos que se enamoran tres veces al día
y ahora lo vuelvo a hacer cada vez que te recuerdo.
Ya van dieciséis en una hora.

Eres como una de esas actrices,
que consiguen con su belleza
que te acabes olvidando
de la trama de la película.
Ha sido observarte e ignorar por completo
el resto de mi vida.

Tan apretada a ti misma
que casi podía considerarse un milagro
que no te rompieras en la siguiente pisada.
Tanta curva en tan poco espacio
que incluso antes de acercarme un metro
ya me sabía a asfalto el cielo de la boca.

Y ya van veintiuna.

Has conseguido con tu presencia,
que vuelva a sentirme partícipe del género masculino.
Tan común como el carnicero de la tienda de la esquina,
tan sátiro como el viejo de la terraza del bar,
tan imbécil como el chico adicto a las abdominales,
tan obsceno como ese casado al que has girado como una peonza,
para poder luego pensar en tu culo
mientras le dice a su mujer que gima más bajo.

Eran mis ojos, los ojos del resto de los hombres,
la misma mente,
el mismo hambre.

Y he sentido la tristeza de una rosa entre las rosas,
la impotencia de un camino que se acaba en un barranco.

Te has marchado como hoja empujada por el viento,
con ese desfilar insultante solo permitido
en la estrecha pasarela de mis sueños.

Nos hemos mirado todos a la cara,
el viejo al carnicero,
yo al imbécil,
el imbécil al casado
y así sucesivamente.
Incluso en un patético instante hemos sonreído,
luego bajando la cabeza
hemos seguido con lo nuestro
como si no hubiera pasado nada.

Pero ha pasado.
Y yo ya llevo veintisiete.



Ernesto Pérez Vallejo

[Los lunes que te debo]





Eu não devia ter pousado os olhos em ti,
pois sou daqueles que se apaixonam três vezes ao dia
e agora é de cada vez que te recordo,
por exemplo nesta última hora já vou em dezasseis.

Tu és como essas actrizes
tão belas tão belas
que a gente acaba por esquecer
a trama do filme.
Comigo foi observar-te e passar a ignorar
por completo o resto da vida.

Tão cingida em ti mesma
que quase se podia haver por milagre
que não te quebrasses toda na passada seguinte.
Tanta curva em tão pouco espaço
que mesmo antes de me chegar um metro
já tinha o céu da boca a saber-me a alcatrão.

E vão já vinte e uma.

Com a tua presença tu conseguiste
que eu voltasse a encaixar-me no género masculino,
tão comum como o homem do talho da esquina,
tão sátiro como o velho da esplanada do bar,
tão imbecil como o moço viciado em abdominais,
tão obsceno como esse homem casado que fizeste
girar como um pião,
para depois se lembrar do teu rabo
enquanto diz à mulher que gema mais baixo.

Eram os meus olhos, os olhos dos outros homens,
a mesma mente,
a mesma fome.

E experimentei a tristeza de uma rosa no meio das rosas,
a impotência de um caminho que vai acabar num barranco.

Porque tu te foste como folha empurrada pelo vento,
com esse pisar insolente só permitido
na passarela dos meus sonhos.

Mirámo-nos todos na cara,
o velho e o homem do talho,
eu e o imbecil,
o imbecil e o homem casado
e assim sucessivamente.
Inclusive sorrimo-nos num patético instante,
baixando a cabeça
para depois irmos à nossa vida
como se nada tivesse acontecido.

Mas aconteceu.
E já cá cantam vinte e sete.


(Trad. A.M.)

.



25.9.16

João Guimarães Rosa (GSV-Início)





– Nonada. 
Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja.
Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego.
Por meu acerto.
Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade.
Daí, vieram me chamar.
Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu; e com máscara de cachorro.
 Me disseram; eu não quis avistar.
Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa.
Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo.
Povo prascóvio.
Mataram.
Dono dele nem sei quem for.
Vieram emprestar minhas armas, cedi.
Não tenho abusões.
 O senhor ri certas risadas...
Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos.
O senhor tolere, isto é o sertão.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)


Sobre:Wikipedia
PDF: Stoa.usp

.

Juan José Saer (Estado poético)






EL ESTADO POÉTICO



Estás en la ventana y cuando creías
haber perdido todo olvidado todo
he aquí que suena el llamado y oyes la voz
y anochece en un cielo verde como un árbol.

 Juan José Saer




Estás à janela e quando pensavas
ter perdido tudo esquecido tudo
eis que soa a chamada e ouves a voz
e a noite cai com um céu verde
como se fosse uma árvore.


(Trad. A.M.)


.

24.9.16

Leda Selma (O silêncio)





O SILÊNCIO



O silêncio é sarcástico:
se cínico, entorta mentiras;
se cético, morde risos;
se sóbrio, camufla verdades
expostas em sorrisos
ocultos na alvura do nada.



Leda Selma

.

23.9.16

Antonio Colinas (Encontro com uma rapariga sueca)





CITA CON UNA MUCHACHA SUECA
ENTRE EL SENA Y LOS CAMPOS ELÍSEOS



Mis ojos eran dos nostálgicas panteras.
¿Cómo era aquella luz que endiosaba mis horas?
Agria luz esmeralda del Ganjes y del Nilo.
La luz de las manzanas salpicadas de lluvia.
La luz que hay en las puertas con picaportes de oro.
La luz que hay en los párpados de las águilas muertas.
Yo esperaba tus ojos con ojeras violáceas
mientras callaban todas las fuentes y en el cielo
mastines de azabache olfateaban las nubes.
(Qué festín el del cielo, qué gran fruto podrido)
Escuchando la lluvia que cesaba en los techos
de cinc, con los cabellos mojados, olorosos
aún por los pinares del Grand Bois de Boulogne,
-las manos escocidas de remar en el lago-
esperando en el pórtico umbroso del museo,
con los pies en la alfombra llena de vino y faunos,
quieto entre las columnas, pálido, distraído
por el gas enfermizo de aquel primer farol,
y por los carruajes, fúnebre y aristócrata
como un poeta inglés de la Romantic Revolt,
pensando en los abetos de tu país al alba,
sonriendo tristemente por no llorar tu ausencia,
cercando con mis dientes tu nombre -Kerstin, Kerstin-
mis ojos como dos nostálgicas panteras
esperaban tus ojos entre los matorrales.


Antonio Colinas




Meus olhos, duas panteras saudosas.
Aquela luz como era, que adoçava meus dias?
Acre luz esmeralda do Nilo e do Ganges,
a luz das maçãs salpicadas de chuva.
A luz das portas de puxadores doirados,
a luz das pálpebras das águias mortas.
Eu esperava teus olhos com olheiras violáceas
enquanto as fontes silenciavam e no céu
mastins de azeviche farejavam as nuvens.
(O céu, que festim, que grande fruto apodrecido)
Escutando a chuva a parar no telhado
de zinco, o cabelo molhado, a cheirar ainda
aos pinheiros do Bois de Boulogne
- as mãos esfoladas de remar na lagoa -
esperando no portal ensombrado do museu,
com os pés na alcatifa cheia de vinho e de faunos,
parado entre as colunas, pálido, distraído
com o gás doentio daquele primeiro candeeiro
e das carruagens, fúnebre e aristocrata
como um poeta inglês da Romantic Revolt,
pensando nos abetos da tua pátria ao amanhecer,
sorrindo triste por não chorar tua ausência,
mordendo com os dentes teu nome – Kerstin, Kerstin -
meus olhos, duas panteras saudosas,
esperavam teus olhos no meio do mato.


(Trad. A.M.)

.

22.9.16

José Carlos Barros (O caminho de casa)





O CAMINHO DE CASA




A minha avó trazia o cântaro
e enchia vagarosamente
os púcaros com água.
Eu ficava a olhar e
por um instante acreditava
que não havia mundo
fora dos muros do pátio
e que o estrangeiro era uma invenção
dos que perdem as chaves
ou o caminho de casa.


José Carlos Barros

.

21.9.16

Ramón Irigoyen (Arte poética)





ARTE POÉTICA



Un poema si no es una pedrada
-y en la sien-
es un fiambre de palabras muertas
si no es una pedrada que partiendo
de una honda certera
se incrusta en una sien
y ya hay un muerto.


Ramón Irigoyen





Um poema se não for uma pedrada
– e na testa –
é um molho de palavras mortas
se não for uma pedrada atirada
por uma funda certeira
enfia-se numa testa
e já temos um morto.

(Trad. A.M.)

.