16.1.17

João Guimarães Rosa (Descendo na cava)





Descendo na cava, por feliz a gente vinha em oculto.
E, justo, já embaixo, no principiar da várzea, era um capim com mais viço, capinzal do fresco de pé-de-serra.
Capim mais alto do que eu – nele à gente se tapava.
Coincidido que, permeio o verde dos talos, a gente via algumas borboletas, presas num lavarinto, batendo suas asas, como por ser.
Caiu o açúcar no mel!
Porque, igual também convim que podíamos ladear um tanto; e, daí, separei, de cabeça, um grupo de homens, que iam ir com o Fafafa: esses avançarem primeiramente – como a certa isca – perturbando o cálculo do inimigo, ao dar o dar.
Respiramos tempo, naqueles transitórios.
De rechego, coçando as caras no capim em pontas, que dava vontade de se espirrar.
Só o rumor que se ouvia era o dos cavalos abocanhando.
Eu tinha pressa de um final, mas o que ia mor em mim era um lavorar de paciência: talento com que eu podia ficar retardando lá, a toda a vida.
Safas – que eu podia dar também um pulo, enorme, sustirado, repentemente.
Vi: o que guerreia é o bicho, não é o homem.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)


Rocío Wittib (Tu estás ali)





tú estás ahí
donde termina la palabra lejos
miras como el otoño se desprende
de la piel rojiza de los árboles
y sientes en los ojos que es noviembre
del mismo modo que sientes
y sabes y callas
que demasiadas veces
dijimos pronto será
tal vez por no decirnos adiós


 Rocío Wittib




tu estás ali
onde termina a palavra longe
observas o Outono a desprender-se
da pele avermelhada das árvores
e sentes nos olhos que é Novembro
tal como sentes
e sabes e calas
que demasiadas vezes
dizemos ‘breve será’
talvez só para não dizer ‘adeus’


(Trad. A.M.)


15.1.17

Jorge de Sena (Suma Teológica)






SUMA TEOLÓGICA




Não vim de longe, meu amor, nem sossobraram
navios no alto mar, quando nasci.

Nada mudou. Continuaram as guerras;
continuou a subir o preço do pão;
continuaram os poetas, uma vez por outra,
a perguntar por ti.

É certo que, então, imensa gente
envelheceu instantânea e misteriosamente.

Mas até isso, meu amor, se não sabe ainda
se foi por minha causa,
se por causa de outros que terão nascido
ao mesmo tempo que eu.


JORGE DE SENA
Poesia-I
 Moraes Editores (1977)



14.1.17

Roberto Juarroz (Cada um se vai como pode)





Cada uno se va como puede,
unos con el pecho entreabierto,
otros con una sola mano,
unos con la cédula de
identidad en el bolsillo,
otros en el alma,
unos con la luna atornillada en la sangre
y otros sin sangre, ni luna, ni recuerdos.

Cada uno se va aunque no pueda,
unos con el amor entre dientes,
otros cambiándose la piel,
unos con la vida y la muerte,
otros con la muerte y la vida,
unos con la mano en su hombro
y otros en el hombro de otro.

Cada uno se va porque se va,
unos con alguien trasnochado
entre las cejas,
otros sin haberse cruzado con nadie,
unos por la puerta que da
o parece dar sobre el camino,
otros por una puerta dibujada
en la pared o tal vez en el aire,
unos sin haber empezado a vivir
y otros sin haber empezado a vivir.

Pero todos se van con los pies atados,
unos por el camino que hicieron,
otros por el que no hicieron
y todos por el que nunca harán.


Roberto Juarroz




Cada um se vai como pode,
uns com o peito aberto,
outros só com uma mão,
uns com o bilhete de
identidade no bolso,
outros na alma,
uns com a lua enfiada no sangue
e outros sem sangue, nem lua, nem lembranças.

Cada um se vai mesmo sem poder,
uns com o amor entre dentes,
outros trocando a pele,
uns com a vida e a morte,
outros com a morte e a vida,
uns com a mão no seu ombro
e outros no ombro alheio.

Cada um se vai porque se vai,
uns com alguém tresnoitado entre as celhas,
outros sem cruzar com ninguém,
uns pela porta que dá
ou parece dar para caminho,
outros por uma porta desenhada
na parede ou no ar talvez,
uns sem começar a viver
e outros sem começar a viver.

Mas todos se vão de pés atados,
uns pelo caminho que fizeram,
outros pelo que não fizeram
e todos, todos, pelo que nunca farão.


(Trad. A.M.)


13.1.17

João Guimarães Rosa (Levantei nos estribos)





E ele endireitou pontudo para sobre mim, jogou o cavalo...
O demo? Em mim, danou-se! Como vinha, terrível, naquele agredimento de boi bravo. Levantei nos estribos. - “E-hê!...”
Esse luzluziu a faca, afiafe, e urrou de ódio de enfiar e cravar, se debruçando, para diante todo. Tirou uma estocada.
Cerrei com ele...
A ponta daquela pegou, por um mau movimento, nas coisas e trens que eu tinha na cintura e a tiracol: se prendeu ali, um mero.
Às asas que eu com a minha quicé, a lambe leal – pajeuzeira – em dura mão, peguei por baixo o outro, encortei-recortei desde o princípio da nuca – ferro ringiu rodeando em ossos, deu o assovião esguichado, no se lesar o cano-do-ar, e mijou alto o sangue dele.
 Cortei por cima do adão...
 Ele Outro caiu do cavalo, já veio antes do chão com os olhos duros apagados...


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)

Fernando Luis Chivite (À beira das hortas)






AL LADO DE LAS HUERTAS         
                


Veintinueve de noviembre por la mañana.
Solo, en el viejo camino de las huertas,
a eso de las once.

El ladrido de algún perro, el sonido
de algún coche lejano, algunos pájaros.
Y el sol, pálido y vulnerable en el aire frío.

Entonces me detengo. Me paro de repente
y digo para mí: voy a pararme un poco,
sólo para saber que puedo pararme cuando quiera.

Voy a pararme aquí, al lado de las huertas,
durante unos minutos. Quiero mirar despacio esta luz
de noviembre, la luz de esta mañana soleada.

Quiero mirar esta luz y quedarme con ella,
por si en los días futuros nos faltara.
Por si la oscuridad llegara a hacerse
demasiado terrible en los días futuros.


FERNANDO LUIS CHIVITE
Calles poco transitadas
(1998)




Vinte e nove de Novembro pela manhã,
sozinho, no velho caminho das hortas,
aí pelas onze.

O latido de um cão, o ruído
de algum carro distante, alguns pássaros.
E o sol, pálido e vulnerável no ar frio.

Então detenho-me. Paro de repente
e digo cá para mim, vou parar um pouco,
só para saber que consigo parar
quando quiser.

Vou parar aqui, à beira das hortas,
por uns minutos. Quero olhar
com vagar esta luz
de Novembro, a luz desta manhã ensolarada.

Quero olhar esta luz e ficar com ela,
para o caso de nos faltar em dias futuros.
Para o caso de a escuridão no futuro
se tornar demasiado terrível.


(Trad. A.M.)


>>  Las afinidades electivas (4p) / Tu cita de los martes (4p) / Poetas siglo XXI (5p) / Euskomedia (perfil) / Todo literatura (entrevista) / Wikipedia


12.1.17

Mark Strand (Manter as coisas)





KEEPING THINGS WHOLE



In a field
I am the absence
of field.
This is
always the case.
Wherever I am
I am what is missing.

When I walk
I part the air
and always
the air moves in
to fill the spaces
where my body’s been.

We all have reasons
for moving.
I move
to keep things whole.


 Mark Strand





Num campo
eu sou a ausência 
de campo.
É sempre assim,
onde quer que esteja,
eu sou o que falta.

Ao caminhar,
aparto o ar,
mas o ar desloca-se sempre,
preenchendo o espaço
que meu corpo ocupara.

Todos nós temos razões 
para mexer.
Eu mexo-me
para manter as coisas.

(Trad. A.M.)


11.1.17

Rita Ramones (Glória)





GLORIA



Gloria a mí
y a ustedes.
Gloria a mis padres,
porque cuanto más ruines fueron sus trabas,
más excelsos mis logros (esta es una ley de la dramaturgia).
Gloria a toda esta miseria de clase media
porque me hace sentir muy cínica,
muy punzante.

Gloria a los fanáticos del fútbol
a los religiosos
a los insensibles
a los insensatos
y a la partida de imbéciles
que no entienden mi poema
porque así me cuesta menos ser genial.


Rita Ramones





Glória a mim
e a vós.
Glória a meus pais,
pois quanto mais fortes as peias,
mais gloriosos meus saltos
(uma lei da dramaturgia, esta).
Glória a toda esta miséria de classe média,
já que me faz sentir muito cínica,
muito picante.

Glória aos fanáticos da bola
aos religiosos
aos insensíveis
aos insensatos
bem como à caterva de imbecis
que não me entendem o poema
pois assim me custa menos ser genial.



(Trad. A.M.)

10.1.17

João Guimarães Rosa (Aí, narro)





As partes, que se deram ou não se deram, ali na Barbaranha, eu aplico, não por vezo meu de dar delongas e empalhar o tempo maior do senhor como meu ouvinte.
 Mas só porque o compadre meu Quelemém deduziu que os fatos daquela era faziam significado de muita importância em minha vida verdadeira, e entradamente o caso relatado pelo seo Ornelas, que com a lição solerte do dr. Hilário se tinha formado.
 Aí, narro.

O senhor me releve e suponha.


JOÃO GUIMARÃES ROSA
Grande Sertão: Veredas
(1956)
.

Raúl Nieto de la Torre (Se meus versos falassem)





SI MIS VERSOS HABLARAN



Si mis versos hablaran
dirían que las chimeneas mienten,
que la lluvia te escribe en los tejados
largas cartas de amor y de odio,
que tus amantes tienen algo mío,
que en cada nube viaja un telegrama,
que sus letras se cuelan por tus labios
cuando los dices,
dirían que les digas lo que dices
de ellos por la espalda,
que no pueden hablar mientras trabajan;
dirían que hace frío para andar
tan lejos de la cama.

(Yo, en cambio, sigo fiel a la palabra
que te di, y no te digo nada)


Raúl Nieto de la Torre




Se meus versos falassem,
diriam que as chaminés mentem,
que a chuva te escreve no telhado
longas cartas de amor e ódio,
que teus amantes têm algo de meu,
que um telegrama viaja em cada nuvem
e suas letras se coam por teus lábios
quando os dizes;
diriam que, digas tu deles
o que disseres pelas costas,
eles não podem falar enquanto trabalham;
diriam que está muito frio
para andar tão longe da cama.

(Eu, por mim, continuo fiel à palavra
dada, e não te digo nada)



(Trad. A.M.)
.