19.2.17

Ana Salomé (Diário)





DIÁRIO



A partir de agora, todo o poema que fale de amor, fora.
Todo o poema que não revolucione, fora.
Todo o poema que não ensine, fora.
Todo o poema que não salve vidas, fora.
Todo o poema que não se sobreviva, fora.
Vou deixar um anúncio no jornal:
Procura-se poeta. Trespasso-me.


Ana Salomé



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18.2.17

Álvaro Mutis (Canção do leste)

 




CANCIÓN DEL ESTE



A la vuelta de la esquina
un ángel invisible espera;
una vaga niebla, un espectro desvaído
te dirá algunas palabras del pasado.
Como agua de acequia, el tiempo
cava en ti su arduo trabajo
de días y semanas,
de años sin nombre ni recuerdo.
A la vuelta de la esquina
te seguirá esperando vanamente
ese que no fuiste, ese que murió
de tanto ser tú mismo lo que eres.
Ni la más leve sospecha,
ni la más leve sombra
te indica lo que pudiera haber sido
ese encuentro. Y, sin embargo,
allí estaba la clave
de tu breve dicha sobre la tierra.

Álvaro Mutis




Ao virar da esquina
um anjo invisível te espera,
uma vaga névoa, um espectro esvaído
dir-te-á palavras do passado.
Como água de levada, o tempo
cava em ti seu árduo trabalho
de dias e semanas,
de anos sem nome nem lembrança.
Ao virar da esquina lá estará
esperando em vão
aquele que não foste, o que morreu
de tanto ser tu mesmo aquilo que és.
Nem a mais leve suspeita,
nem a sombra mais ténue
te dizem o que poderia ter sido
esse encontro. E, contudo,
estava ali a chave 
da tua breve ventura na terra.


(Trad. A.M.)

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17.2.17

Alfredo Buxán (Aparição)





APARIÇÃO




Vi-te a sair com o sorriso posto
como um broche e fiquei-me a olhar-te
perdidinho de assombro e alegria.
Não creio que volte a ver-te, bem sei,
mas tão pouco creio que te esqueça.


ALFREDO BUXÁN
Las Palabras Perdidas
(Poesía 1989-2008)
Bartleby Editores (2011)

(Trad. A.M.)

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16.2.17

Alberto de Lacerda (Os pássaros)





Os pássaros
estabelecem diálogos
que ninguém entende
felizmente

Como tudo o que é puro
de raiz
o que os pássaros dizem
não se traduz


ALBERTO DE LACERDA
Átrio
IN-CM (1997)


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15.2.17

Flor Codagnone (As palavras vão morrer)





Las palabras van a morir
a la angustia
y no hay signo
que escape a ese paso.
Estamos condenados
a la música del adiós.


Flor Codagnone




As palavras vão morrer
na angústia
e não há signo
que escape a tal.
Estamos condenados
à música do adeus.


(Trad. A.M.)


>>  Emma Gunst (21p) / Poetas siglo XXI (24p) / Transtierros (5p) / Poetas peronistas (5p)

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14.2.17

Eduardo Dalter (Faltam as palavras)





Faltan las palabras,                        
o sobran otras veces.
Los hechos las deciden
necesarias o las ahogan.
Las abren y evidencian,
y las golpean día a día.
Están bajo juicio sumarísimo.

Eduardo Dalter




Faltam as palavras
ou sobram outras vezes.
Os factos as fazem
necessárias ou afogam-nas.
Abrem-nas, mostram-nas,
agridem-nas dia a dia.
São rés, rés em processo sumário.


(Trad. A.M.)

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13.2.17

A.M.Pires Cabral (Pirilampos-I)





PIRILAMPOS-I



Em noites muito quentes de Verão,
passeando em direcção à serra
em busca de frescura,
víamos nos buracos das paredes
aquelas mansamente incandescentes
criaturas em forma de brasa: os pirilampos.
(O povo, contudo, que não tem
papas na língua e gosta de chamar
às coisas pelo nome que tem mais à mão,
com licença do leitor, dizia luze-cus,
aludindo à tranquila combustão interior
que lhes põe a luzir no extremo do abdómen
 – ou seja, no cu – uma lanterna.)



A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

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> Mais pirilampos, a apanhar: F.A.Pacheco

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