23.4.17

Eduardo Mitre (Linhas de Outono)





LÍNEAS DE OTOÑO



1
Luz líquida de otoño:
en la copa de los árboles
beben los ojos.

2
No pasa el verano, no.
Arde, eso sí
y en mil ascuas.
(El otoño
es su húmeda llama).
Del verde
al amarillo
al rojo
arde como el alcohol,
como la vida de Rimbaud,
como el cuerpo
cambiante
de la pasión.

3
Pasa el viento
como siempre pasa en el otoño:
haciendo caer las hojas.
Y en cada rama brota
la transparencia del invierno.

4
Me observan curiosos
desde la misma rama
la ardilla y el tordo.

5
El cuarto de hotel.
En la ventana el jilguero
también de paso.

6
Lección del otoño:
¿asirse a la tierra
o desprenderse de todo?

7
Árboles desnudos:
hojas las alas
y los pájaros frutos.

8
Los versos de Wang Wei,
desgajo uno,
lo injerto y prende bien:
otoño corto: el crepúsculo.

9
Hormiguero de astros.
Sola
la luna
con fulgor prestado.
Pero no importa.
Ya lo dijo
Antonio Porcchia:
nadie -ni aun el sol-
es la luz de sí mismo.

10
El invierno a la puerta.
El vino. La amistad
de los amigos
distantes o muertos.
Digo sus nombres:
oigo sus voces.

11
Los niños de Somalia.
Muda se quedará la página
y a oscuras mi casa
si no salto a otra línea.

12
El fresno
silencio de pie
el silencio.

13
Se agita -barca su cuerpo-
mi mujer dormida.
¿El viento en su sueño?

14
La luz de la lámpara.
El poema:
árbol de las palabras.
Contigo
hablarán del otoño
si tu voz las despierta
si las palpan tus ojos.


Eduardo Mitre




1
Luz líquida de Outono:
bebem os olhos
na copa das árvores.

2
O Verão não, não passa,
arde, isso sim,
em mil áscuas.
(O Outono
é sua húmida chama).
De verde
a amarelo
a vermelho
arde como álcool,
como a vida de Rimbaud,
como o corpo
mutante
da paixão.

3
Passa o vento
como passa sempre de Outono,
fazendo cair as folhas.
E em cada ramo brota
a transparência do Inverno.

4
Curiosos me observam
pousados no mesmo ramo
o esquilo e o tordo.

5
Quarto de hotel.
Um pássaro na janela
também de passagem.

6
Lição do Outono:
agarrar-se à terra
ou desprender-se de todo?

7
Árvores despidas:
folhas as asas
e as aves frutos.

8
Os versos de Wang Wei,
arranco um,
enxerto e pega bem.
Outono breve, o crepúsculo.

9.
Formigueiro de astros.
A lua
ela só
com fulgor emprestado.
Pouco importa.
Como disse
Antonio Porcchia:
ninguém – nem mesmo o sol –
é a luz de si mesmo.

10
O Inverno à porta.
O vinho. Os amigos,
distantes ou falecidos.
Digo seus nomes,
oiço as vozes.

11
Meninos da Somália.
Muda ficará esta página
e às escuras a casa,
caso eu não mude de linha.

12
O freixo
silêncio erguido
o silêncio.

13
Agita-se – barco seu corpo –
minha mulher a dormir.
O vento em seu sonho?

14
A luz da lâmpada.
O poema:
árvore de palavras.
Falar-te-ão do Outono
se com a voz as acordas
ou com os olhos lhes tocas.

(Trad. A.M.)

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22.4.17

Machado de Assis (Ela e ele)





Tenho ali na parede o retrato dela, ao lado do marido, tais quais na outra casa.
A pintura escureceu muito, mas ainda dá idéia de ambos.
Não me lembra nada dele, a não ser vagamente que era alto e usava cabeleira grande; o retrato mostra uns olhos redondos, que me acompanham para todos os lados, efeito da pintura que me assombrava em pequeno.
O pescoço sai de uma gravata preta de muitas voltas, a cara é toda rapada, salvo um trechozinho pegado às orelhas.
O de minha mãe mostra que era linda.
Contava então vinte anos, e tinha uma flor entre os dedos.
No painel parece oferecer a flor ao marido.
O que se lê na cara de ambos é que, se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade.


MACHADO DE ASSIS
Dom Casmurro
(1900)

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21.4.17

Eduardo Llanos (Intimidade)






INTIMIDAD



Si cada hombre es un mundo,
admite entonces que esta noche
te corone Miss Mundo.


Eduardo Llanos





Se cada homem é um mundo
deixa-me então esta noite
coroar-te Miss Mundo.

(Trad. A.M.)

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20.4.17

Eduardo Dalter (Há um caminho)

 




Hay un camino
aún no atascado,
aún ni pensado,
que comienza
en la punta justo
de tus pies; hay
un camino; hay,
hay un camino.

Eduardo Dalter




Há um caminho
ainda não atascado,
nem sequer pensado,
que começa
na ponta mesmo
dos teus pés; há
um caminho; sim,
há um caminho.


(Trad. A.M.)

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19.4.17

Corpo presente (43)





PRAGA-II




Flor de amêndoa
tição
maçã camoesa

- haviam de roer-te
as saudades...

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18.4.17

Eduardo Chirinos (No túmulo de Salinas)





JUNTO A LA TUMBA DE SALINAS



Un pequeño saurio atraviesa la tumba de Salinas,
husmea el óxido que mancha la blancura del mármol
y se oculta rápidamente entre la hierba.
Entonces lo contemplo.
Qué de besos perdidos frente al mar,
qué de labios bebiendo sus gotas azules,
qué de cielos nunca hollados, fortalezas
donde el amor se rindió a los abrazos de nadie.
Nadie, Salinas, buscando entre sombras un cuerpo desnudo,
nadie en las palabras que alguna vez ardieron por nosotros.
Yo también me enamoré con tus poemas.
Ellos sabían lo que habría de ocurrirme, me leía en ellos,
pero tú plagiaste mi vida, la dignificaste, la hiciste del revés.
¿Mereces entonces el perdón?
Ahora que estás bajo un cielo verdadero,
devorado por los insectos de la tierra, pronombre
encadenado a la carne de unos besos que yo di por ti,
te ofrezco estas flores.
Acéptalas,  Salinas, como un homenaje de quien quiso creer
y vivió feliz en el fecundo engaño.

Eduardo Chirinos




Uma lagartixa atravessa o túmulo de Sabinas,
fareja o óxido que mancha o branco do mármore
e esconde-se rapidamente entre a erva.
Então ponho-me a contemplá-lo.
Que de beijos perdidos em frente ao mar,
que de lábios bebendo suas gotas de azul,
que de céus jamais calcados, fortalezas
onde o amor se rendeu aos abraços de ninguém.
Ninguém, Salinas, buscando entre sombras um corpo desnudo,
ninguém nas palavras que um dia arderam por nós.
Também eu me enamorei com teus versos.
Eles sabiam o que havia de me suceder,
eu podia ler-me neles,
mas tu plagiaste-me a vida, dignificaste-a,
viraste-a do avesso.
Mereces pois o perdão?
Agora que te encontras num céu verdadeiro,
devorado dos bichos da terra, pronome
agrilhoado na carne de alguns beijos que eu dei por ti,
estas flores eu te ofereço.
Toma-as, Salinas, como homenagem de quem quis acreditar
e feliz viveu na fecunda ilusão.

(Trad. A.M.)


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17.4.17

Louise Warren (Criar espaço)





Criar espaço, o poema responde sempre a essa exigência.
Andar sobre as águas, na superfície da lua, neve e gelo.
Marcha interrompida, calor a subir após um tempo
de caminhada. Voltar sem as luvas.
Ler, escrever, depois de tanto tempo no corpo.
Um modo de viver com.
A sensibilidade ama a vida. Harmonia natural, pulsação contínua.
O silêncio tira seus próprios fios, suas conclusões.
Os caramelos de Fevereiro, a luz fechada em si mesma. Tomá-los, também a eles.
A minha véstia quente de lã e o bater do meu coração, nada mais da tarde.
Espaço de solidão, nada entre o vidro e a interrogaçãp.
Minha gratidão para com a poesia, uma emoção derivada da ferida,
da dor, da força, inteira em si própria.
A nitidez de uma sombra, uma frase, uma nota.


Louise Warren


(Trad. A.M.)

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