23.9.17

Meira Delmar (O milagre)





EL MILAGRO



Pienso en ti.

La tarde,
no es una tarde más;
es el recuerdo
de aquella otra, azul,
en que se hizo
el amor en nosotros
como un día
la luz en las tinieblas.

Y fue entonces más clara
la estrella, el perfume
del jazmín más cercano,
menos
punzantes las espinas.

Ahora,
al evocarla creo
haber sido testigo
de un milagro.


Meira Delmar




Penso em ti.

A tarde não é
só mais uma tarde;
é a lembrança
de outra tarde, azul,
em que o amor
se fez em nós
como a luz, um dia,
se fez nas trevas.

E foi então mais clara
a estrela, o perfume
do jasmim mais próximo,
menos
picantes os espinhos.

Agora,
ao evocá-la, creio
que fui testemunha
de um milagre.

(Trad. A.M.)

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22.9.17

Ana Salomé (Ode ao castigo)





ODE AO CASTIGO



Só mais uma menina entre outras
E o quadro negro onde escrever o teu nome a giz
Como um erro ortográfico do coração.

Castigo.
Entre nós o alto muro do recreio
E a obrigação de permanecer só.


Ana Salomé



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21.9.17

Mario Benedetti (Angelus)





ANGELUS



Quién me iba a decir que el destino era esto.

Ver la lluvia a través de letras invertidas,
un paredón con manchas que parecen pronombres,
el techo de los ómnibus brillantes como peces
y esa melancolía que impregna las bocinas.

Aquí no hay cielo,
aquí no hay horizonte.

Hay una mesa grande para todos los brazos
y una silla que gira cuando quiero escaparme.
Otro día se acaba y el destino era eso.

Es raro que uno tenga tiempo de verse triste:
siempre suena una orden, un teléfono, un timbre,
y, claro, está prohibido llorar sobre los libros
porque no queda bien que la tinta se corra.


Mario Benedetti





Quem me diria que o destino era isto.

Ver a chuva através de letras invertidas,
um paredão com manchas que parecem pronomes,
o tecto dos ónibus brilhantes como peixes
e essa melancolia que impregna os apitos.

Aqui não há céu,
não há horizonte.

Há uma mesa grande para todos os braços
e uma cadeira que gira quando eu me quero escapar.
Mais um dia se acaba e o destino era isto.

É raro ter-se tempo para estar triste,
há sempre uma ordem, um telefone, uma campainha,
e, claro, é proibido chorar sobre os livros,
porque não fica bem a tinta escorrer.


(Trad. A.M.)

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20.9.17

César Cantoni (O tempo irreparável)





EL TIEMPO IRREPARABLE       


      

Quién iba, entonces, a pensarlo.
Lo cierto es que mi padre está muerto
como si nunca hubiese estado vivo.
Un día se le helaron las manos y los pies,
y la casa se llenó de parientes,
y mi madre lloró, de rodillas, junto al lecho.
Todavía lo recuerdo.


Mi padre está muerto o ya no está,
y no es suficiente ahora saber que fue feliz.
En este callado amanecer de otoño,
mientras el agua burbujea en la pava,
y la radio reporta las últimas catástrofes,
y yo cumplo con el rito habitual de afeitarme,
sólo una cosa es real: su ausencia, que no cesa.


César Cantoni




Quem é que ia pensá-lo, nesse tempo.
O certo é que meu pai está morto,
assim como se nunca tivesse estado vivo.
Um dia gelaram-lhe as mãos e os pés,
e a casa encheu-se de parentes,
e minha mãe chorou, ajoelhada, junto ao leito.
Ainda me lembra.

Meu pai está morto, ou já cá não está mais,
e não basta agora saber que foi feliz.
Neste calado amanhecer de Outono,
enquanto a água borbulha na chaleira,
e a rádio dá as últimas catástrofes,
 eu cumpro o rito usual de barbear,
uma só coisa é real: a sua ausência, que não cessa.


(Trad. A.M.)




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19.9.17

A.M.Pires Cabral (Erosão)





EROSÃO



Montes arredondados, de tão velhos,
que já destes pão e hoje dais cardos,

dizei qual erosão mais vos magoa:
se a que vos vem do alto
no uivo dos ventos e nas cordas de chuva

- se a do desuso agrário.



A.M.PIRES CABRAL
Gaveta do Fundo
(2013)

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18.9.17

Mariano Crespo (Proibido e nublado)





PROHIBIDO Y NUBLADO



Si pensáramos los días impares.
Si amáramos los días de sol.
Si fuéramos invisibles los jueves.
Si estuviera prohibido morirse con lluvia.

Todo sería tan previsible y tan imprevisto
como el temblor de tu sexo
para mi sismógrafo.

Y añado: alguien te comería
a besos, como yo pretendo ahora,
aunque esté prohibido y nublado.

No estamos hechos, amor mío,
para lo que con nosotros están haciendo.

Mariano Crespo Martínez





Se pensássemos nos dias ímpares,
se amássemos nos dias de sol,
se fôssemos invisíveis às quintas,
se fosse proibido morrer com chuva.

Tudo seria tão previsível e tão imprevisto
como o tremor do teu sexo
para o meu sismógrafo.

E acrescento, alguém te comeria
com beijos, como eu agora pretendo,
apesar de proibido e haver nuvens.

Não somos feitos, amor meu,
para o que estão a fazer connosco.

(Trad. A.M.)


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17.9.17

María Sanz (Vento)





  AIRE  



A pesar de que el mar y la tristeza
no acaban de llevarse el día, sueño
con otra orilla prístina, lejana,
donde las aguas mecen partituras.
Una suite para olas,
olas de Bach,
que vienen y se alejan,
y vienen otra vez, constancia mística
junto a lo que no acaban de llevarse,
oh música azulada,
el mar y la tristeza.


María Sanz






Nunca mais acabam de levar o dia,
o mar e a tristeza, mas eu sonho
com outra beira pristina, longínqua,
onde as águas embalam partituras.
Uma suite para ondas,
ondas de Bach,
que vêm e se afastam,
e vêm de novo, constância mística
do que nunca mais acabam de levar,
ó música azulada,
o mar e a tristeza.



(Trad. A.M.)

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