23.3.17

Batania (Sementeira)





SIEMBRA



El miedo que tuve,
 si pudiera encerrarlo en una ballena muerta
 y ponerlo al sol colgado de unos cables eléctricos,

el miedo a vuestra necesidad de fruto,
 a vuestros pájaros con números de oro
 cantando en las jaulas registradoras,

el miedo que tuve
 y ya no tengo porque sembré una casa:
 la que ahora estalla de gerundios en flor.


Batania



O medo que eu tive,
se pudesse enfiá-lo numa baleia morta
e pendurá-lo nos fios ao sol,

o medo da vossa precisão de fruto,
dos vossos pássaros com números de oiro
a cantar em jaulas registadoras,

o medo que eu tive
e já não tenho porque semeei uma casa,
esta que explode agora de gerúndios em flor.



(Trad. A.M.)

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22.3.17

Ape Rotoma (Embebedo-me todas as noites)





Me emborracho cada noche para no pensar en ti
y poder dormir. Despierto de madrugada con resaca
y el jodido insomnio alcohólico me impide dormir de nuevo.
Como un zombi, me acerco al ordenador de un compañero de piso
y tecleo cosas ya escritas, para no pensar en ti
y poder vivir un rato. La mañana pasa lenta
y el puto guión me aburre. Tecleo alguna otra cosa,
leo el periódico de ayer y "Hollywood" de Bukowski,
fumo mucho y pienso más, procuro que no sea en ti
y no lo consigo. Vuelta al guión. Otro café. Y, por fin,
grabo en ese mismo software muy despacio este poema.
Y me gusta. Y me entretengo en juguetear con su ritmo,
en respetar su estructura y en multiplicar enlaces,
aunque parezca mentira, para no pensar en ti.

Ape Rotoma




Embebedo-me todas as noites para não pensar em ti
e poder dormir. Desperto de madrugada com ressaca
e a porra da insónia do álcool não me deixa adormecer novamente.
Como um zombi, vou ao computador de um colega de casa
e teclo umas coisas já escritas, para não pensar em ti
e poder viver um bocado. A manhã escorre lenta
e o puto do guião chateia-me. Teclo uma outra coisa qualquer,
leio o jornal de ontem e ‘Hollywood’ de Bukowski,
fumo bastante e penso mais, procuro que não seja em ti
mas não consigo. Torno ao guião. Outro café. E, por fim,
gravo no teclado muito devagar este poema.
E agrada-me. E entretenho-me a brincar-lhe com o ritmo,
respeitar-lhe a estrutura e multiplicar ligações,
embora pareça mentira, para não pensar em ti.


(Trad. A.M.)


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21.3.17

Inês Dias (Regressámos à praia)






Regressámos à praia,
esgotada essa série de acidentes
em que o menor foi o amor,
ao contrário do que se previa.
Deixámos a maré subir
na memória, cancelar-nos
a areia sob os pés, levar
até os restos do navio encalhado
que ressuscitava todas as manhãs,
corpo de ossos já limpos.
Podia ter sido o meu.
Somos, afinal, dos últimos:
desfiamos gerações, contando onda após onda
após onda, até ao mergulho final.

E escrevemos como vivemos,
na espuma ou nos vidros embaciados
da cidade, com a teimosa convicção de que
nada ficará – nós não ficaremos.


Inês Dias



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19.3.17

Antonio Pérez Morte (Perdidos)





PERDIDOS



Nos fuimos distanciando paso a paso,
casi sin saberlo, distraídos,
caminamos dejando en el olvido
la vieja ilusión de ser nosotros.
Y seguimos desde entonces, sin motivo,
deambulando a un ritmo acelerado,
sin saber a dónde, por qué lado,
conscientes sí, de traicionarnos,
como siempre, una vez más,
¡por cobardía!
Rebeldes de sueños
y actitud conformista
paseamos las reliquias del pasado
por las calles vacías de la vida,
y donde hubo una esperanza
hay una herida.

Antonio Pérez Morte



Fomo-nos distanciando passo a passo,
sem saber quase, distraídos,
caminhamos deixando esquecida
a velha ideia de sermos nós mesmos.
E continuamos desde então, sem motivo,
a deambular em passo acelerado,
sem saber para onde ou por que lado,
cientes sim de nos trairmos,
como sempre, uma vez mais,
por cobardia!
Rebeldes de sonhos
e atitude conformista,
passeamos as relíquias do passado
pelas ruas vazias da vida,
e onde houve já uma esperança
há agora uma ferida.

(Trad. A.M.)

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18.3.17

Hilda Hilst (Roteiro do silêncio)





ROTEIRO DO SILÊNCIO



Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.
Nas prisões e nos conventos
Nas igrejas e na noite
Não há silêncio bastante
Para o meu silêncio.

Os amantes no quarto.
Os ratos no muro.
A menina
Nos longos corredores do colégio.
Todos os cães perdidos
Pelos quais tenho sofrido
Quero que saibam:
O meu silêncio é maior
Que toda solidão
E que todo silêncio.


Hilda Hilst


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17.3.17

Antonio Orihuela (Pegas-me na mão)

 




Me tomas de la mano
y a mitad de un cigarro
me dices que la herida de la operación de hernia estrangulada
no termina de cerrar por falta de plaquetas en los glóbulos rojos,
que se te ha disparado el azúcar
y la tensión va a su puta bola
dispuesta a joderte el corazón en cualquier momento,
y además está lo del hígado, los pies, los pulmones...
y aun así
brilla en tus ojos
la extraña luz de los rebeldes.

Me dices que aquí no te va quedando nadie,
que tal vez te bajes al sur, con tus hijos,
definitivamente.

Me dices que España es una caverna
habitada por cuarenta millones de cadáveres.

Me dices que estás paseando por Picadilly
debajo de una gabardina
y llevas un ómnibus rojo en el bolsillo para tus hijos.

Me dices que en medio de la escasez y de las sombras
has decido casarte con una comunista
por la Iglesia.

Me dices que es domingo
y hombres sonrientes,
con un mundo nuevo en los corazones,
se agitan dentro de monos azules
y marchan hacia el Alcázar.

Me dices que estás jugando con metralla
en el último agujero de obús
en el Parque del Oeste
en el frente de Madrid.

Me dices que eres un niño,
pero yo
solo veo
a un hombre
que se está muriendo.


Antonio Orihuela

[Apología de la luz]




Pegas-me na mão
e a meio dum cigarro
dizes-me que a ferida da operação da hérnia
não acaba de fechar por falta de plaquetas no sangue,
que o açúcar disparou
e a tensão está descontrolada
disposta a lixar-te o coração a qualquer instante,
e há também o fígado, os pés, os pulmões...
e apesar de tudo
brilha-te nos olhos
a estranha luz dos rebeldes.

Dizes-me que aqui quase não te resta ninguém,
que talvez partas para o sul, com os filhos,
definitivamente.

Dizes-me que a Espanha é apenas uma caverna
com quarenta milhões de cadáveres.

Dizes-me que andas a passear por Picadilly
de gabardina
e tens um carrinho vermelho no bolso
para os teus filhos.

Dizes-me que no meio da escassez e das sombras
decidiste casar pela Igreja
com uma comunista.

Dizes-me que é domingo
e homens sorridentes,
com um mundo novo no coração,
agitam-se por dentro de macacos azuis
e marcham para o Alcázar.

Dizes-me que estás a brincar com metralha
no último buraco de obús
no Parque Oeste
na frente de Madrid.

Dizes-me que és uma criança,
mas eu
vejo só
um homem
a morrer.


(Trad. A.M.)

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