7.12.16

Mariano Crespo (Rasgão)





ROTO



Lo que me gusta de la mujer
es esa búsqueda inquietante
de animal espiritual y ángel en celo
que tantas veces rozo y nunca encuentro.

Esa distancia cercana del lejos debajo de tu pelo.

Aquello que procede del roto que deja el misterio.


Mariano Crespo





O que amo na mulher
é essa busca inquietante
de animal espiritual e anjo de cio
que toco tanta vez e jamais encontro.

Essa distância vizinha do longe
por debaixo do teu cabelo.

Aquilo que sai do rasgão
que o mistério abre.


(Trad. A.M.)

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6.12.16

Coitado do Jorge (100)





DEZ ANOS




Foi como perder os braços,
perder a mãe.



Fazem menos falta,
passado dez anos?

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María Laura Decésare (Confissão)





CONFESIÓN



Si pudiéramos

escribir sobre lo escrito
y así borrar el silencio
como si en un verso
se nos fuera la vida


María Laura Decésare





Se pudéssemos
escrever sobre o escrito
e assim apagar o silêncio
como se num verso
nos fora a vida toda


(Trad. A.M.)

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5.12.16

Manuel de Freitas (Chão antigo)





CHÃO ANTIGO



É pena que já não existam
esses lugares imundos – puros, quero eu
dizer – onde a morte entrava
sem ter de pedir licença.
Lugares onde eram por igual sinceros
o sono, o vómito ou a sombra de um abraço
(Maiakovski e Céline tinham a mesma importância
e a sorte de não serem futebolistas).

É pena que já não possamos
comemorar no chão a derrota
do corpo pela manhã. Ao lavarem
os copos, da última vez, houve duas
ou três gerações que se partiram.
Talvez eu pertencesse a uma delas – mas
isso, ao poema, importa muito pouco.

Há um lugar que escreve sobre
a ausência de todos os lugares.
Tonéis de vários tamanhos
onde inscrevi, por distracção,
o único nome verdadeiro.
Estou a falar, naturalmente,
de tabernas.
Mas talvez não seja apenas isso.


 MANUEL DE FREITAS
A flor dos terramotos
(Averno)


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4.12.16

Alfonsina Storni (Homem pequeno)





HOMBRE PEQUEÑITO



Hombre pequeñito, hombre pequeñito,
Suelta a tu canario que quiere volar...
Yo soy el canario, hombre pequeñito,
Déjame saltar.

Estuve en tu jaula, hombre pequeñito,
Hombre pequeñito que jaula me das.
Digo pequeñito porque no me entiendes,
Ni me entenderás.

Tampoco te entiendo, pero mientras tanto
Ábreme la jaula que quiero escapar;
Hombre pequeñito, te amé media hora,
No me pidas más.


Alfonsina Storni




Homem pequeno, homem pequeno,
solta o canário que quer voar...
Eu sou o canário, homem pequeno,
deixa-me saltar.

Estive na jaula, homem pequeno,
homem pequeno que jaula me dás.
Pequeno digo pois não me entendes,
nem me entenderás.

Eu tão pouco te entendo, mas entretanto
abre-me a jaula, que quero escapar;
homem pequeno, amei-te uma hora,
não me peças mais.



(Trad. A.M.)

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3.12.16

Coitado do Jorge (99)





BEIJOS




‘Beijo-enciclopédia’, o da sobredotada.

Sim, enciclopédia: porque tinha tudo.

Ela usava outra expressão: ‘beijo-de-corpo-inteiro’.


(Era o mesmo. E não era...)


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Raúl Sánchez (Não foi nada)





NO HA SIDO NADA



Lo mismo que se cuenta una tragedia
que no llegó a ocurrir aunque hubo un breve
intervalo de ansiosa incertidumbre
durante el que se dieron por sentados

los más negros presagios concebibles
(que acaban por cobrar más importancia
que lo que en realidad ha sucedido:
curiosa condición del ser humano),

en ocasiones temo tanto verme
de pronto, sin tu amor, desguarecido
que no consigo mantener la calma

y un miedo irracional se me apodera
hasta que me sonríes y murmuro
la más hermosa de las frases hechas:

'para lo que podía haber pasado...'.


Raúl Sánchez




Tal como se conta uma tragédia
que não chegou a dar-se, embora houvesse
um breve lapso de incerteza ansiosa
em que se deram por assentes

os mais negros presságios
(que acabam por ter mais importância
do que o realmente acontecido
- condição curiosa do ser humano),

às vezes temo tanto ver-me
de repente, sem teu amor, desvalido,
que não consigo manter a calma

e toma-me um medo irracional
até que tu me sorris e eu murmuro
a mais bela das frases feitas:

‘para aquilo que podia ter acontecido...’.


 (Trad. A.M.)

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2.12.16

José Alberto Oliveira (Folhas)





FOLHAS



Duas folhas secas
de plátano
entram comigo
no elevador.
Também elas
empurradas
pelo vento.


José Alberto Oliveira

[Hospedaria Camões]

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1.12.16

María García Zambrano (O sonho da felicidade)





O SONHO DA FELICIDADE    

       

Apanhar caranguejos à meia-noite
às apalpadelas
escolher as pedras mais aguçadas
erguê-las
pegar neles pelo lado inofensivo
metê-los no balde
continuar
com a lanterna na cabeça
procurar
a mão do meu pai
com emoção
e os pés tiritando de mar
e salitre
observar
no meio das sombras
a mão dele segurando com força na minha

cuidado para não pisar o reflexo da lua.


María García Zambrano



(Trad. A.M.)

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