4.10.16

Jaime Sabines (A procissão do enterro)





A PROCISSÃO DO ENTERRO nas ruas da cidade é omino-
samente patética. Atrás do carro que leva o cadáver, vai
o autocarro, ou autocarros negros, com os doridos, familiares
e amigos. As duas ou três pessoas chorosas, realmente doridas,
são ultrajadas pelos cláxones vizinhos, pelos gritos dos
vendedores, pelos risos dos transeuntes, pela terrível
indiferença do mundo. A carreta avança, pára, acelera
de novo, e uma pessoa pensa que até os mortos têm de
respeitar os sinais de trânsito. É um enterro urbano, decente,
expedito. Não tem a solenidade nem a ternura do enterro de província.

Uma vez vi um camponês carregar nos ombros uma caixa
pequena e branca. Era uma menina, talvez filha. Atrás dele não ia
ninguém, nem sequer uma dessas vizinhas que deitam o xale pela
cabeça e se põem muito sérias, como se pensassem na morte.
O homem ia sozinho, pelo meio da rua, apertando o sombreiro
com uma das mãos sobre a caixa branca. Ao chegar ao centro da
povoação iam quatro carros atrás, quatro carros de desconhecidos
que não se tinham atrevido a ultrapassar.

É claro que não quero que me enterrem. Mas se algum dia tiver
que ser, é melhor enterrarem-me em casa, na cave, do que ir morto
por essas ruas de Deus sem ninguém me ligar. (...)


Jaime Sabines




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